Por que os brasileiros choram e não se divertem?

Após o jogo entre Brasil e Chile, onde vários de nossos jogadores demonstraram ao vivo suas emoções, veio à tona o tema “choro como sinônimo de fraqueza”. É evidente que choramos por motivos distintos: tristeza, dor, alegria, pânico, pressão psicológica, depressão.Todos estes motivos podem ser justificados quando temos claramente definidas as circunstâncias envolvidas com a situação específica.

O que acontece no caso dos jogadores brasileiros chama a atenção por ser algo público e faz com que, quase de imediato, os analistas de plantão – nem todos com capacidade para fazer uma avaliação apropriada – comecem a dar palpites. Seria excesso de pressão por resultado? Medo de uma derrota e reação negativa dos torcedores? Motivação positiva?

Sem entendermos o contexto da situação qualquer afirmação é mero “chute”. Mas fazendo uma analogia com o mundo organizacional – que tem decisões de mundial praticamente todos os dias – posso garantir que é muito usual executivos responsáveis por operações que envolvem milhões chorarem. Claro que isso geralmente se dá em ambiente isolado. Lembro-me de um caso de uma alta executiva que antes de enfrentar as reuniões do board de sua empresa era obrigada a trancar-se no banheiro pelos menos quinze minutos em prantos. Saía de lá com muita energia, e claro com a ajuda de uma maquiagem bem feita.

O que é verdade e podemos observar nos jogadores do Brasil? A maioria dos jogadores convocados e que compõem o time titular joga sua primeira Copa e provavelmente, em função da idade e momento de carreira, sua última. A Copa sendo realizada no Brasil aumenta ainda mais o peso e a responsabilidade de cada um. Não bastasse este fato, é sabido que a grande maioria dos brasileiros não concorda com o falso legado do evento, praticamente todos os convocados não moram e não vivem a situação atual do país. As manifestações realizadas no período pré copa podem ter gerado um grau de pressão política e ansiedade ainda maior. As lembranças do fracasso de 50 rondam os pensamentos de cada atleta, todos os dias. Se aliarmos estes fatos com uma fragilidade técnica da equipe, as condições psicológicas podem ser pioradas.

A cena mais preocupante da decisão contra o Chile foi provocada pelo capitão Thiago Silva, que no momento mais crítico do jogo decide não participar da cobrança dos penaltis e resolve sentar na bola, isolando-se do grupo, para meditar ou rezar. É uma posição inovadora para um líder. Afasta-se, para pensar. Conta a história que quando o rei Pelé entrava no vestiário antes de um grande jogo e apenas se deitava com os olhos fechados, quase em uma atividade auto hipnótica, ficando totalmente isolado, o grupo tinha certeza que o “jogo era dele”.  Sabiam que ganhariam e que Pelé iria arrasar com os adversários. Talvez Thiago esteja usando a mesma técnica.

Uma última observação sobre nossa equipe. Acho que o fator da emoção estar aparente não é o maior problema. O que realmente sinto falta é a alegria no jogar, falta a diversão, um pouco do lado criança de cada um. O contra-exemplo disto fica evidente quando Neymar pega na bola. Ele não está jogando apenas, está se divertindo. Não vejo isto nos demais, apenas uma pressão para acertar ou demonstrar que são capazes. Se esta falta de alegria tiver conexão com o choro brasileiro, estas lágrimas podem sim nos custar caro.