Você Sabe o que é Perder?

Quando crianças, ainda nas primeiras classes na escola, somos motivados a vencer. Saber sempre as respostas, ganhar no futebol, na corrida, chegar em primeiro em uma Olimpíada de Matemática ou História. Um pouco mais adultos entramos na competição da universidade, ganham os que passam no vestibular, nas escolas mais concorridas, vencedores. Chega o primeiro emprego, muitas vezes tão concorrido, que mais uma vez a vitória é reservada a poucos.
E isso não é diferente na vida pessoal. Compramos uma casa, vencemos, nos casamos, vencemos, temos filhos lindos, vencemos, somos promovidos, vencemos, ganhamos um prêmio por desempenho, vencemos.
Desde cedo e desde sempre o ser humano é preparado e induzido a vitórias. A sociedade premia o vencedor. Quantos livros sobre vencedores existem? Milhares!
Muitas vezes nos esquecemos que existem aqueles que nem sempre vencem. O “vencer” desde os primórdios foi sinal de vida. Aos perdedores – os leões.
Nas empresas ocorre o mesmo. No esporte o mesmo. O perdedor, ou aquele que não atinge uma meta, ou não se adapta a uma função, ou é negativamente avaliado, está sempre fora de jogo.
Errar não é permitido. Errar não é humano. Performance é sempre muito importante. Aprendizado não. Será que aprendemos somente com vitórias? Quando um membro da equipe erra feio, o que fazemos? Nosso lado julgador ataca de imediato. Expõe o erro e torna o personagem envolvido alguém menor. Pedir desculpas é sinal de fraqueza. Nosso Presidente jamais pede desculpas, pois em nosso cultura ocidental pedir desculpas é sinônimo de assumir um erro – e errar não é humano. Seu filho ou filha comete um erro – você imediatamente ataca “peça desculpas agora”.
A desculpa passa a ser o castigo não o ato de reconhecimento de algo comum, estatisticamente possível. A desculpa é encarada como explicação para algo. A equipe explica-se pois o resultado foi ruim. O jogador explica porque errou o pênalti. A criança explica porque não foi bem na prova.
Nós explicamos porque temos hábitos ruins. Explicamos mas não nos desculpamos. Quando perdemos uma das batalhas da vida, explicamos, não pedimos desculpas.
Ninguém gosta de perder. Você não vai encontrar um gerente de vendas com G maiúsculo falando para sua equipe “perdemos o maior contrato do ano para nosso principal concorrente pois eu usei uma estratégia errada, desculpem-me”. Loucura. Se isso acontece o gerente é chamado de louco e mandado embora. Então assumem as explicações. E aí mora o perigo. Explicações são muito caras. Não vendemos pois nosso produto não é inovador. Lá vem inovações de milhões. Não vendemos pois nossa equipe precisa de mais treinamento – lá vem treinamento por aí. Não vendemos pois investimos pouco em marketing – aí vem uma mega campanha.
Enquanto não soubermos lidar claramente com as derrotas jogamos o jogo do “eu acredito que você jamais erra e você continua me dando explicações”.
Ganhar é muto bom, mas perder deve ser um modelo de aprendizado – sem isso não bastam desculpas muito menos explicações.

Source: Exame Blog