O Paradigma do Padrão

Trabalhei alguns anos de minha vida auxiliando empresas a atingirem um determinado padrão, comparável com benchmarks do setor. Nada de errado com isso. Mas hoje encaro as coisas de modo um pouco diferente. Adotar um padrão pode ser uma armadilha perigosa no mundo em que vivemos.
O padrão amarra, coloca regras, muitas vezes torna nossos processos ineficientes. Mas a vida nos empurra a adotarmos padrões todos os dias. O professor entra na sala de aula e pergunta aos alunos “o que vocês querem aprender hoje?” – claro que isso não seria uma atitude padrão. Um CEO começa uma reunião estratégica com a cúpula de gestores da empresa e diz “Senhores temos duas horas para juntos debatermos as ideias promissoras e inovadoras que levarão nossa empresa ao topo do mercado” – provavelmente não, a reunião tem uma pauta, muito discurso, briga, pouca ação efetiva – pois esse é o padrão.
Sexta-feira é o nosso casual day. Ora por que não pode ser todo dia? Por que precisamos sufocar em um terno preto com gravatas discretas? Questão de padrão. Muitas vezes nem sabemos direito os motivos que nos fazem seguir um padrão. Um amigo comentou dia desses por que todos os cursos universitários tem 4 ou 5 anos de duração. Um arquiteto dedica em sua formação o mesmo que um engenheiro, ou que um advogado, ou um economista. Um padrão. Trabalhamos durante o dia e dedicamos o pouco tempo do final da luz do dia a nossa família, nossas crianças estudam bem cedinho, devem aprender desde pequenos a levantar cedo (e terem sono a manhã toda…). Padrão. Os impostos (todos) são pagos no começo do ano – haja bolso. Os salários são pagos dia 5 ou dia 10. As escolas cobram geralmente uma 13a. parcela – mesmo sendo prestadoras de serviços. O chefe deve avaliar anualmente os membros de sua equipe, mesmo que ele não possa dar uma gratificação pelo excelente trabalho realizado ou dispensa-los pela pífia atuação. Um padrão. Toda empresa deve estar na lista das 100 melhores empresas para se trabalhar, mesmo que isso não seja unanimidade interna. Um padrão. O melhor é mais caro. A melhor embalagem protege o melhor produto. Uma experiência no exterior é um diferencial, mesmo que esta tenha ocorrido clandestinamente e de modo um tanto ilegal. Tem que ir bem no ENEM, tirar as melhores notas, entrar na mais badalada escola pública, falar inglês, espanhol, mandarin, passar como trainee em uma empresa cuja proporção de candidatos seja no mínimo 5.000 para um, mesmo essa pessoa não estando nem um pouco feliz com sua vida. O jovem deve ser dinâmico, multifuncional, comunicativo, gostar de gente e enfrentar desafios. Esquecemos que existem jovens brilhantes que são introspectivos, tímidos e vivem muito bem assim. Padrão. O Executivo padrão deve ser arrojado, destemido e encarar adversidades. A crise de 2008 mostrou que isso era um padrão equivocado.
Os empreendedores também devem seguir um padrão. Ter um business plan e conhecer profundamente do negócio, mesmo sabendo que são raros os grandes negócios que nasceram dessa forma. Intuição é palavra proibida. Aos 50 você deve começar a pensar em parar. Aos 60 você é aposentado, ou deixado de lado. Aos 61 você cria uma nova profissão – que as vezes dura mais 20, 25, 30 anos – padrão. Somente os pobres são presos (estaríamos começando a quebrar esse padrão?). Estudar é muito caro e é para poucos, mesmo com todo conteúdo gratuito que a internet nos proporciona?

Mudar ou quebrar um padrão é um gigante desafio. Geralmente os instigadores de quebra de padrão são encarados como conturbadores da paz. Revolucionários, descontentes, agitadores, do mal. Simples de explicar. Quebrar um padrão significa tirar pessoas da zona de conforto, buscar o novo, o mais prazeroso, aquilo que dá resultados positivos – mas claro isso dá uma trabalho enorme. Se você, após ler esse artigo, resolver ser um deles terá que convencer o Professor, o CEO, o Jovem, o Profissional Liberal, o Governo, seus Pais, Familiares, Mentores, etc que sua forma de pensar é melhor que o padrão atual adotado.

Quando falamos hoje em sermos mais criativos e inovadores deveríamos pensar em quais padrões podem ser alterados ou eliminados. Isso seria um grande começo. Crianças são ótimas nessa tarefa de quebrar padrões. Elas sempre praticam o ato de realizar as três perguntas fundamentais: por que, por que, por que? Se você encontrar respostas adequadas à essas questões provavelmente é porque o padrão faz-se necessário.

Por falar nisso, todo blog não deve ser tão longo – parece que ainda não consegui quebrar esse padrão.