Performance: até onde queremos chegar?

Sábado de manhã, sol forte e umidade baixa, não são os principais inimigos que confrontam a cabeça de uma dezena de jovens com seus doze ou treze anos.
Eles apenas disputam uma partida de futebol, o que nessa faixa etária, deveria refletir-se em pura alegria e diversão.
Mas isso nem sempre é verdade. O time da casa começa mal. Os meninos erram alguns passes, que em uma partida comum, seria algo muito natural. Entretanto, esse não é um jogo amistoso, vale pontos e os jovens parecem pressionados para garantir a vitória. Após dois ou três erros seguidos, o treinador aos gritos chama um jogador reserva para fazer aquecimento rente a lateral do campo, ao mesmo tempo ele mostra para os jogadores titulares que qualquer jogador que cometer um erro pode ser substituído de imediato. Ele faz questão de deixar claro a todos (aos gritos novamente) que alguém já está sendo preparado para entrar.
A face de cada menino mostra um semblante de preocupação, para não dizer de terror, a alegria pelo jogo se foi. O divertimento foi substituído pela pressão efetiva.
A demanda por Alta Performance tem começado cada vez mais cedo. Escola e pais tem sua parcela de culpa nisso. Disputas por ser o melhor, ter as maiores notas, acertar sempre, ter que saber 100% das vezes a resposta certa, são, muitas vezes, as exigências estabelecidas. Interessante que os consultórios dos terapeutas e dos conselheiros de carreira estão cada vez mais cheios de jovens frustrados e com um alto nível de estresse.
Vejamos o exemplo do ensino médio tradicional, que foca e prepara o aluno apenas para realizar provas e testes, como se isso fosse a única forma correta de gerar aprendizado. A neurose por ter notas altas em dispositivos caóticos como o ENEM toma conta de muitos educadores. A noção de que esses jovens estão perdendo anos incríveis de suas vidas, muitas vezes mergulhados na complexidade e falso senso de aprendizado, é abandonada.
A desculpa é sempre a mesma, a Alta Performance é algo que a vida exigirá no futuro, devido a isso é “interessante começar desde cedo”. Esquecem-se, pais e escolas, que fases da vida não voltam mais, que a formação social e do ser, passa pela fase de gerar experiências nesse momento de vida. Em um mundo tecnológico, onde as crianças e jovens são direcionadas a ter cada vez menos contato pessoal, a cobrança por resultados rápidos é uma constante e assim transforma-se em um fator agravante ao processo de sociabilização.
Esses jovens chegam ao ambiente de trabalho com uma certeza enraizada em suas mentes – vencer e ser o melhor, é a sua missão, e deve ser atingida a qualquer custo.
E assim começa um novo desafio das áreas de recursos humanos em grandes corporações. Qualidade de Vida e Alta Performance continuam sendo temas antagônicos e muitas vezes apenas servem como pano de fundo de um debate maior, onde queremos chegar e a que custo? O número de executivos estressados, afastados, com depressão ou doenças crônicas, aumenta a cada dia. Qual é o limite para a obtenção de resultados ou para conseguirmos cumprir com nossos objetivos? Será que vale o sacrifício, quanto se gasta anualmente com a área de saúde e sinistros? Será que estamos mesmo aumentando o que chamamos de performance das pessoas ou apenas estamos criando apenas mais um “número”, um mero “indicador”?

Source: Exame Blog