John Whitmore e a Educação

Sir John Whitmore esteve no Brasil recentemente. Por trás da postura séria e introspectiva deste expert em desenvolvimento de pessoas está uma figura preocupada, no momento atual de sua vida, em contribuir para um mundo melhor. Educação, capitalismo, jovens e tendências políticas são seus temas favoritas. Foi piloto de automobilismo, membro da aristocracia inglesa, esportista e treinador especialista em performance, um dos precursores do coaching em empresas e hoje atua em diversos projetos sociais e de educação.  Tive a honra de passar algumas horas conversando com John em São Paulo, nosso papo daria uma grande matéria de várias páginas sobre atualidades. Escolhi colocar aqui no blog a parte da conversa sobre educação. Espero que curtam.

 

RR – Como você vê no mundo o momento atual na área de educação?

JW – Os seres humanos devem pensar hoje como podemos mudar o sistema de educação em um mundo que está passando por uma série crise economica, ambiental e em outras áreas. Nós devemos estar preparados para lidar com a educação principalmente de nossos jovens, pois eles serão realmente os agentes que podem mudar esse mundo no futuro. Pois nesse momento nós estamos muito atrasados em relação a transformações nesse processo, e ainda não descobrimos ao certo porque caminhamos tão lentamente nessa área. Se pegarmos de forma similar o conceito de “coaching” aplicado ao mundo corporativo – nele hoje tentamos implementar um modelo de consciência e responsabilização em cada indivíduo o mesmo poderia ser feito e introduzido aos nossos estudantes, crianças, jovens e adolescentes, de forma a modernizarmos, em qualquer país do mundo a forma como ensinamos e aprendemos.

RR- Como você observa as atuais demandas dos jovens – que vivem em um mundo cercado de desafios e com forte apelo tecnológico – serem percebidas e atendidas pelos modelos educacionais existentes? Você acredita que as escolas estejam preparadas para lidar positivamente com isso?

JW – As escolas não tem mudado na medida que precisariam mudar. Existem inúmeras razões para isso, me parece que as autoridades do ensino continuam a aplicar e manter comportamentos do passado, já aplicados anteriormente, e isso claro deve ser mais fácil do que mudar a forma como ensinamos aos nossos alunos, pois isso envolve um grande esforço em pensarmos em coisas novas. Eles estão na verdade muito ocupados com outras coisas e usam pouco seu tempo para pensar em mudar esse sistema tradicional. Eu gostaria de contextualizar essa resposta. A humanidade está envolvida com uma forma psicossocial. Estou me referindo a uma evolução das pessoas, não de forma biológica mas sim de uma forma psicológica de desenvolver pessoas. Se você observar as fases que passamos nesse desenvolvimento, o estágio primeira na vida de uma criança, acontece logo após seu nascimento e um pouco antes dela começar a andar, sua mãe começa a impor o que deve ou não fazer. E isso é feito através de uma comunicação muito direta – ela apenas diz diretamente a criança o que ela deveria ou não fazer, e isso é bem razoável pois a mãe pretende apenas proteger a criança. Isso é muito bom mas por outro lado muito perigoso a medida que é necessário fazermos a criança começar a lidar com a vida e seus problemas de maneira autônoma. E ai surge a necessidade de fazermos com que aquela criança descubra como fazer as coisas a sua maneira e não somente da forma que gostaríamos que fosse. Isso não significa que devemos nos omitir como pais, mas sim nos dá uma oportunidade de acompanharmos seu desenvolvimento fazendo boas questões, questões que façam a criança pensar e ter opções de escolhas. Isso faz com que a criança comece a entender as conseqüências de suas atitudes e torne-se mais responsável por suas atitudes. Infelizmente os pais quase não aplicam isso em seu dia-a-dia, deixando de dar opções às crianças. Outro ponto importante para os pais seria deixar as críticas de lado – não focar as suas críticas às escolhas das crianças. Talvez deixarmos nossos filhos sair ao relento sem um casaco seja mais positivo do que simplesmente darmos avisos e colocarmos medos infundados em suas mentes. Se você der 3 escolhas a seus filhos por dia, ao final de um ano você terá dado mil chances a eles, ao final de dez anos serão dez mil escolhas que eles terão que fazer. O mesmo ocorre na escola, se nossos professores fossem treinados a dar escolhas a nossas crianças e estudantes seria muito melhor. O que você quer estudar hoje, o que motivaria você a aprender esse tema, que maneira facilitaria o seu aprendizado, são ótimas questões para um docente refletir e aplicar com seus alunos.

RR – John se você pudesse, como um mestre do coaching, fazer uma questão para um típico professor que ensina nossas crianças hoje, que tipo de questão seria?

JW – A primeira seria para ele pensar sobre o que é mais importante no momento em que sua aula está ocorrendo, como ele identificaria o que faz em sala de aula que produz ótimo resultado, pediria exemplos de sucessos em sua prática de ensino. Depois pediria a ele para pensar em formas de ensino praticadas que não estão surtindo efeito. Acho que faria ele pensar sobre essas respostas. Existem momentos que você precisa aplicar questões mais desafiadoras. Me lembro que escrevi um artigo em 2005 apontando claramente para a possibilidade de uma crise financeira, que anos depois surgiu e surpreendeu muita gente – menos eu. Logo depois muitas pessoas da área financeira me perguntaram: “como você sabia com tanta certeza disso?”. Eu apenas respondi com outra pergunta, a pergunta correta: -como vocês, especialistas na área, não sabiam?

Source: Exame Blog